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Raças

Raça, racismo, relativização e RPG… RRRR – Parte 1

Piadas a parte no título com uma pseudosigla que lembra um rosnado, temos aqui um cenário – e não é de RPG literalmente – que deixa muitos com demasiada raiva, rosnando: raça. E de ambos os lados, pois até em mesas, há polarização. Isso é fácil de ser constatado nos inúmeros fóruns e grupos “sociais” nas redes sobre cenários e sistemas de RPG. Uma comunidade em prol do hobby, mas dividida em gostos e também em ideologias. E isso é um problema? Ao meu ver não. Isso é o natural. Assim como em qualquer grupo de qualquer coisa.

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Retomando os quatros Rs que nomeiam esse artigo, temos um debate já não tão recente no RPG, mas que ganhou maiores holofotes desde o embate mais aflorado no ano passado sobre o racismo sistêmico após a morte do cidadão imobilizado pelo policial, ambos estadunidenses. Somando também com posicionamento da Wizards quanto as raças em D&D e o lançamento das regras alternativas sobre as mesmas. Posteriormente chegando a medidas de remoção dos bônus negativos em determinadas habilidades quanto as raças.

Etnia minoritária codificada em raça fantástica? Se sim, e agora?

A mudança nas perspectivas raciais já muda em D&D desde a sua 3° edição. Fora que não somente neste produto RPGístico paradigmas vem sendo quebrados ou novas questões vem sendo lançadas no que diz respeito ao conceito de raças. E aqui, trataremos “raças” como raças fantásticas, à priori.

 

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Olhando o “problema”

Será mesmo um problema?

Coloquei a palavra problema entre aspas justamente para elucidar o sentido de relativização incluído no título. Pois muitos se recusam, ou pelo menos não se esforçam, em se ater ao teor datado – apenas produto de seu tempo, natural – ao antro racial promovido no cerne do RPG de fantasia. Cerne este promovido por D&D e que por sua vez foi influenciado por Tolkien. Analisando de forma mais crítica, podemos notar um traço colonialista sobre o ato de “desbravar, matar e acumular riquezas”. Principal pedida para uma mesa de D&D. Principalmente nos títulos que precedem a 3° edição. Pois, como falei, são produtos de seu tempo. Sem falar também, se colocarmos em simetria as obras de Tolkien, iremos notar uma ausência de representatividade, seja étnica (humana), seja de sexo.

 

E daí?

Se o goblin só quer marretar humano na cabeça, e daí?

E daí nada, ora. É isso e pronto! A partir do momento que se entende que tudo é produto de seu tempo, se entende também que o comum é se adaptar. D&D, mesmo do passado, não ficou ruim por isso. Senhor dos Anéis não ficou ruim por isso! E é muita presunção achar que escandalizando hoje o racismo, sexismo, homofobia, xenofobia, se está isento de lá no futuro alguém ainda lhe caracterizar como tudo isso. Pois nós mesmos somos produtos de NOSSO tempo. Não importa o quão descontruídos achamos que somos.

Dito isso, temos aí a relativização consciente. Algo que não busca cancelamento – tão em moda hoje em dia – de algo, mas que não nega seus pontos hoje já defeituosos. Entender que uma raça é má e ponto e que não existe debate em matá-la pode ter sim raízes racistas passivas. Isso não quer dizer que não iremos jogar um bom RPG onde matamos goblins sem remorso. Coisas como olhar crítico, sem paixão e sessão zero para RPGs resolvem tudo isso de uma forma maravilhosa.

Nada disso é base para justificar racismo ou qualquer forma de preconceito. É base para entendermos os erros, que sim estão na estrutura e no passado de um RPG, mas que não o excluem de qualquer melhora ou simples aceitação de como foi e ainda é importante. Tendo, diga-se de passagem, pontos positivos em demasia. E isso serve para qualquer problema social detectado em uma obra. Não temos que fingir que não está lá. Temos que compreender o contexto e com isso repensar no hoje. Não vivendo no passado, mas aceitando-o, admitindo-o. Constatando.

 

A raça ruim pelos olhos do outro

“Ovô te matá, umanu!”

A mudança da perspectiva sobre raças, suas culturas e embates por distinção de aspectos e ideologias é um demasiado avanço. Mudando a fórmula de “essa raça é malvada, não importa o que se faça. O jeito é exterminar”, podemos chegar a incontáveis conflitos, riscos e emancipações férteis para campanhas de RPG. A quebra do maniqueísmo é sempre uma interessante proposta para tirar as coisas do preto no branco e revelar tons de cinza por todos os lados. Vide Attack on Titans que apresenta povos com suas dívidas e retaliações históricas onde cada qual busca sobrepor a ofensa e genocídio do outro (pelo menos até determinado momento no mangá). Isso é formidável! Não se trata mais de ter um lado bom (ou mau). Se trata de sermos servidos com uma trama bem feita.

 

A raça ruim e ponto

Monstro ou apenas criatura senciente que caçava aqui por perto? E por que uma das perspectivas tem que estar errada?

Ao mesmo tempo que Goblin Slayer não deve ser visto de forma negativa quanto sua proposta antirraça, ao que diz respeito aos goblins. Ali, é PRE-ESTABELECIDO que AQUELA RAÇA DE FANTASIA é má. E ela sobrepujará demais se não for severamente combatida. E fim! Mundos assim, como a Terra Média, tratam de bem e mal de forma existencialista, ligada a deuses e fenômenos que remontam seus cernes nas raças. E não o contrário! Um orc é mau por culpa da deidade criadora e não o inverso. Ou mesmo é mal porque é o ponto de vista de quem o combate. Não. Ali ele é mal por essência! É uma questão cósmica e não histórica/social. Uma narrativa ou cenário assim não deve ser desencorajado.

Mais uma vez, o relativo não está em racismo ter existido ou não no RPG quanto raças, isso é um fato! Existiu (se ainda não existe)! O relativo se trata de que isso irá variar conforme a narrativa e proposta. E o mesmo vale para todos os outros atos e perspectivas tóxicas que socialmente existam em nosso mundo ou no mundo de determinada obra. Tem espaço para a raça multifacetada e tem espaço para a raça essencialmente má. Tudo é contexto e consenso.

 

E veja bem!

Olha aí óóó!

Nada disso legitima comportamentos e visões preconceituosas EM MESA. O que digo é sobre a abordagem de temas e o entendimento de como os mesmos se originaram, tem mudado e como podemos gerí-los. Se há preconceito na sua mesa de forma prática, ou seja, off game ou quando percebe-se que tal coisa vai pro on game como válvula de escape, sabendo que nós seres humanos – diferentes dos orcs de Tolkien – não somos essencialmente maus e sim multifacetados, que temos escolha e entendimento sobre como nos projetamos, devemos fazer algo a respeito. Fazer alguma coisa para retirar tal aspecto do seu RPG quanto prática de mesa. Racismo pode ser um elemento narrativo, nada mais que isso.

 

Na próxima parte desse assunto abordarei se as “providências” tomadas pela dona Wizards foram minimamente efetivas quanto ao combate do nocivo no RPG quanto o racial ou se acabaram por relativizar o sentido de raça fantástica. Farei paralelos com outros cenários/sistemas elucidando perspectivas conflitantes para que possamos entender os dois lados da moeda. Não de quem é racista e de quem não é, mas de quem achou tudo isso útil para o jogo e de quem achou que tudo não passou de tática midiática.

Até lá, boas reflexões e boas rolagens, RPGistas!

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